domingo, 24 de abril de 2011

Ser bom...é legal?

Nos anos 1960, o pintor, cineasta e produtor, Andy Warhol, profetizou que todos teríamos os nossos quinze minutos de fama. Após o fenômeno dos realities shows e o boom das celebridades instantâneas da internet, fica mais evidente que o americano tinha (tem!) razão. 
O horário do almoço na capital baiana deixou seu lado bucólico dos velhos tempos, quando os pais se reuniam com os filhos e apreciavam o convívio familiar (mesmo sendo um modelo não tangível para boa parte dos brasileiros, mas era um ritual) e hoje deixamos de lado esses prazeres para individualizar ou segregar em guetos nossas refeições, ou apenas lançamos mão do expediente por ocasiões de eventos sociais. O mais agravante que devemos notar também é que um novo personagem tornou-se ponto de apoio nesses momentos – a TV; e em Salvador vem acompanhada pelos nossos “super-heróis” soteropolitanos ou não. Tratam-se dos programas ditos de utilidade pública, mas que o tempo inteiro estão enfiando produtos de qualidade e eficiência duvidosa, a fim de engrossar seus rendimentos.
Visitei a cidade de Mucugê na Chapada Diamantina e soube de um trabalho que um militar desenvolve com crianças carentes oferecendo oficinas musicais. Já conta com mais de 100 deles que dominam algum instrumento e noções musicais, porém muitos ainda permanecem de fora das atividades por falta de condições para adquirir um; aliás, a maioria foi custeada pelo mentor do projeto, que retira do próprio bolso os recursos para manter sua pequena filarmônica. Poucos se interessam em ajudá-lo nesta empreitada e muitos nem tem conhecimento.
A revista Veja, no início de agosto, fez uma matéria mostrando a invasão dos programas popularescos que prolifera no Nordeste do país. O tosco e o mau-gosto se fundem em busca de indicies de audiência em detrimento da qualidade e do instinto de utilidade pública. O que percebemos nesses programas, transmitidos em pleno horário de almoço, é uma total inversão de papéis! O repórter assumiu a função de investigador de polícia ou até delegado (alguns chegam a ser promotores defendendo penas capitais) enquanto o “acusado” tem seus quinze minutos (ou mais) de fama. Dependendo da gravidade do delito, o assunto é “discutido” praticamente durante toda a semana e alguns chegam a fazer uma espécie de “o melhor da semana”, requentando as matérias veiculadas durante o período.
O que a população ainda não percebeu é que a maioria desses “paladinos da justiça” pouco estão se importando com sua rotina diária, seus anseios políticos, sociais, econômicos e familiares, preferindo deturpar seu pensamento, iludindo-a com a pretensão de que são intermediários do Estado; alguns chegam a tratar autoridades com a intimidade de amigos de mesa de bar; outros chegam a salivar de raiva ou se derramar em lágrimas, em momentos só vistos em Hollywood, caçoando da aparente ingenuidade ou tolerância do expectador, enquanto atividades promovidas por grupos organizados para minimizar as mazelas da população periférica são sumariamente lançadas para debaixo do tapete apenas porque se julga não incrementarem os números do Ibope.
Um professor me disse, na adolescência, que “existe mais bondade que maldade no mundo, o problema é que a maldade vende, enquanto a bondade tem que ser volumosa para se tornar notícia”. Creio que ele tem razão, infelizmente! Quem sabe um dia um dos meninos da filarmônica de Mucugê (ou até mesmo a própria) projete-se para além da Chapada por outras vias e encontre finalmente seus quinze minutos para que percebamos que ser bom é legal!

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